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A política virou futebol, o político virou ídolo e pensar diferente virou uma ofensa

Jornalista, escritor e estrategista político

Por: Redação
14/10/2026 às 18h31
A política virou futebol, o político virou ídolo e pensar diferente virou uma ofensa

Por Paulo Maneira

Durante muito tempo, ouvimos nossos pais e avós repetirem uma frase que atravessou gerações: “Política, futebol e religião não se discutem”. Era uma recomendação para evitar conflitos, preservar amizades e impedir que opiniões diferentes comprometessem as relações pessoais. Cada um tinha seu time, sua religião e suas preferências políticas, e a convivência dependia, muitas vezes, de saber respeitar essas diferenças. O curioso é perceber como essa frase ganhou um significado completamente diferente com o passar dos anos. A política absorveu a rivalidade do futebol, incorporou a devoção normalmente associada à religião e transformou o debate público em uma disputa na qual vencer o adversário parece ser mais importante do que defender ideias, apresentar projetos ou encontrar soluções para os problemas da população.

No futebol, é natural que o torcedor queira ver seu time vencer, independentemente da qualidade da partida. Ele comemora a vitória, lamenta a derrota e mantém sua paixão mesmo quando o desempenho da equipe deixa a desejar. A política, entretanto, não deveria funcionar dessa maneira. Uma eleição não pode ser tratada como um campeonato em que o único objetivo é derrotar o adversário, porque as consequências de uma escolha política vão muito além da satisfação de quem venceu. Estamos falando de saúde, educação, segurança, emprego, infraestrutura e decisões que interferem diretamente na vida de milhões de pessoas. Mesmo assim, tenho observado um comportamento cada vez mais presente nas disputas eleitorais: o eleitor que já não consegue explicar por que apoia determinado candidato, mas sabe perfeitamente por que rejeita o outro. A escolha deixa de ser construída a partir da confiança em um projeto e passa a ser determinada pela rejeição a alguém. O candidato A não precisa necessariamente convencer o eleitor de que tem as melhores propostas, basta representar a possibilidade de derrotar o candidato B.

Esse comportamento não surgiu por acaso. A ciência política utiliza a expressão polarização afetiva para explicar situações em que a identificação com um grupo político e a rejeição ao grupo adversário passam a influenciar a maneira como as pessoas interpretam os acontecimentos, avaliam propostas e enxergam seus próprios representantes. O problema se agrava quando essa rejeição deixa de ser uma consequência das divergências políticas e passa a ser o principal motivo da escolha eleitoral. É nesse ambiente que o debate sobre ideias perde espaço para o confronto de identidades. Uma proposta pode ser considerada boa ou ruim não pelo seu conteúdo, mas simplesmente por quem a apresentou. O mesmo comportamento que leva alguém a defender uma decisão equivocada de seu candidato pode fazer essa pessoa rejeitar uma iniciativa positiva apenas porque partiu do adversário. Quando chegamos a esse ponto, a política deixa de ser um exercício de avaliação e passa a funcionar como uma manifestação de fidelidade.

Talvez uma das consequências mais preocupantes desse processo seja a transformação de lideranças políticas em figuras praticamente intocáveis. A admiração, que deveria nascer do reconhecimento de uma trajetória, de realizações ou de ideias, em determinados casos se transforma em idolatria. E faço questão de utilizar essa palavra porque existe uma diferença enorme entre respeitar uma liderança e acreditar que ela está sempre certa. O eleitor que admira um político deveria ser justamente aquele que tem liberdade para cobrar, questionar e discordar quando necessário. Entretanto, estamos construindo um ambiente em que qualquer crítica ao próprio grupo pode ser interpretada como traição, enquanto reconhecer uma qualidade no adversário parece representar uma mudança de lado. Políticos não são santos, não são donos da verdade e muito menos deveriam ocupar o lugar de ídolos na vida das pessoas. São representantes que recebem, temporariamente, a responsabilidade de exercer o poder em nome da população e precisam ser avaliados por aquilo que fazem, não pela devoção que conseguem despertar.

Essa idolatria também ajuda a explicar a dificuldade de surgirem novas lideranças políticas. Não acredito que faltem pessoas preparadas, com boas ideias e disposição para contribuir com a sociedade. O que frequentemente falta é espaço para que essas pessoas sejam ouvidas sem precisar reproduzir o discurso de quem já ocupa posições de poder. A política brasileira possui mecanismos que favorecem a permanência de lideranças consolidadas, e o ambiente de confronto permanente acaba reforçando essa concentração. Quem apresenta uma visão diferente corre o risco de ser rejeitado antes mesmo de conseguir explicar suas propostas. Em muitos casos, o debate deixa de ser sobre o futuro da população e passa a girar em torno do futuro político de determinadas pessoas. Projetos pessoais ganham prioridade sobre projetos coletivos, alianças são construídas para preservar posições e a renovação, tão defendida nos discursos, encontra resistência quando ameaça interesses estabelecidos.

Depois de tantos anos trabalhando com campanhas eleitorais, percebo que existe uma questão que merece ser discutida com mais profundidade: a rejeição ao adversário se tornou um dos instrumentos mais explorados na comunicação política. Em determinadas disputas, convencer o eleitor de que o outro candidato representa um perigo pode ser mais simples do que apresentar um projeto capaz de despertar esperança e confiança. O medo mobiliza, a indignação gera reação e o confronto mantém as pessoas permanentemente envolvidas na disputa. O resultado é um ambiente em que parte das campanhas dedica mais energia a explicar por que o adversário não pode vencer do que a demonstrar por que seu próprio candidato merece governar. Não se trata de negar a necessidade de críticas, denúncias ou confrontos políticos, que fazem parte de qualquer democracia. A questão é perceber quando a crítica deixa de servir ao esclarecimento do eleitor e passa a existir apenas para alimentar a rejeição.

As consequências desse comportamento ultrapassam o período eleitoral e chegam às relações pessoais. Famílias discutem, amizades são rompidas e pessoas passam a ser julgadas não pelo caráter ou pela maneira como tratam os outros, mas pelas opiniões políticas que manifestam. Discordar virou motivo para ataques, mudar de opinião passou a ser interpretado como fraqueza e reconhecer um erro do próprio grupo pode provocar reações mais duras do que o erro cometido. Estamos permitindo que a lógica da rivalidade transforme adversários políticos em inimigos permanentes. Em suas manifestações mais extremas, esse comportamento lembra códigos de organizações que tratam qualquer oposição como uma ameaça que precisa ser neutralizada. É uma comparação dura, mas serve para provocar uma reflexão sobre o risco de normalizarmos a ideia de que quem pensa diferente precisa ser destruído politicamente, desacreditado ou silenciado. A democracia pressupõe exatamente o contrário: a existência de adversários legítimos, o direito ao contraditório e a possibilidade de alternância no poder.

Essa necessidade de transformar tudo em uma disputa política também criou uma espécie de obrigação de posicionamento público. Influenciadores, artistas, empresas, marcas e até instituições passaram a ser pressionados a declarar de que lado estão, mesmo quando sua atividade não possui relação direta com a disputa eleitoral. Já não basta produzir conteúdo, vender um produto, exercer uma profissão ou simplesmente manifestar uma opinião sobre determinado assunto. Existe uma cobrança crescente para que cada pessoa ou organização assuma uma identidade política reconhecível. E o mais curioso é que até o silêncio passou a ser interpretado como uma declaração. Quem não manifesta apoio pode ser acusado de concordar com o adversário, enquanto quem tenta preservar sua independência corre o risco de ser rejeitado pelos dois lados. Criamos um ambiente em que a liberdade de escolher também parece exigir a obrigação de anunciar publicamente essa escolha.

É evidente que pessoas públicas, empresas e instituições podem ser questionadas por suas decisões, especialmente quando suas atividades produzem consequências para a sociedade. O problema começa quando a cobrança deixa de ser sobre atitudes concretas e passa a exigir demonstrações de fidelidade política. Uma marca não deveria precisar declarar apoio a um candidato para que seus produtos fossem avaliados, assim como um influenciador não deveria ser obrigado a transformar seu trabalho em propaganda eleitoral para provar que possui consciência social. Essa lógica produz manifestações cada vez menos espontâneas, posicionamentos calculados para evitar ataques e uma contradição difícil de ignorar: em nome da liberdade de expressão, algumas pessoas passaram a exigir que todos expressem exatamente aquilo que elas gostariam de ouvir. Chegamos ao ponto em que não basta ter opinião. É preciso provar que sua opinião pertence a um dos lados. E quando uma sociedade começa a exigir declarações públicas de fidelidade política, corre o risco de confundir participação democrática com obediência coletiva.

Não estou defendendo uma política sem paixões, convicções ou posicionamentos firmes. A política também é feita de valores, sentimentos e visões diferentes de sociedade. Existem divergências profundas que não podem ser ignoradas ou tratadas como simples mal-entendidos. O que questiono é a perda da capacidade de raciocinar para além dessas diferenças. Uma pessoa pode defender suas ideias com firmeza sem precisar transformar todos os que discordam dela em inimigos. Pode apoiar um candidato e reconhecer seus erros. Pode rejeitar determinadas propostas de um adversário e admitir que outras merecem ser discutidas. Pode, inclusive, mudar de opinião quando encontra argumentos ou fatos que justificam essa mudança. Isso não deveria ser visto como incoerência, mas como uma demonstração de independência intelectual. O direito de se posicionar politicamente também precisa incluir o direito de não transformar toda manifestação pública em uma declaração de apoio eleitoral.

Talvez seja necessário recuperar algumas perguntas que deveriam orientar qualquer escolha eleitoral. O que esse candidato já fez? Quais resultados apresentou? O que pretende fazer? Suas propostas são possíveis de executar? Quem será beneficiado por elas? Qual é sua capacidade de dialogar, construir soluções e representar pessoas que não votaram nele? São perguntas simples, mas que acabam esquecidas quando o debate político se resume a escolher um lado e atacar o outro. A democracia perde qualidade quando o eleitor abre mão de avaliar seus representantes e passa a justificar qualquer comportamento apenas porque considera o adversário uma alternativa pior. Não podemos aceitar que a ausência de identificação com um candidato seja suficiente para conceder apoio incondicional a outro.

A frase que nossos pais e avós repetiam talvez precise mesmo ser atualizada. Política, futebol e religião podem e devem ser discutidos, desde que exista respeito pelo direito de cada pessoa pensar de maneira diferente. A política não precisa de torcedores dispostos a defender tudo o que seus líderes fazem, mas de cidadãos capazes de cobrar, questionar e participar das decisões que afetam suas vidas. Não precisamos de figuras intocáveis nem de rivalidades eternas. Precisamos recuperar a capacidade de enxergar propostas, reconhecer resultados e compreender que ninguém deve ser obrigado a escolher entre duas opiniões como se não existissem outras possibilidades.

Existe uma diferença enorme entre fazer uma escolha e simplesmente aceitar a escolha que fizeram por você. E talvez esse seja um dos maiores desafios da nossa democracia: devolver ao eleitor a liberdade de pensar sem que suas opiniões sejam determinadas pela torcida, pelo medo ou pela necessidade de pertencer a um grupo. Porque, quando deixamos de questionar nossos próprios representantes e passamos a rejeitar automaticamente todos os que pensam diferente, não estamos fortalecendo nossas convicções. Estamos apenas permitindo que outras pessoas pensem por nós.

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Paulo Maneira
Paulo Maneira
Paulo Maneira é jornalista, escritor e estrategista político, com mais de 25 anos de experiência em comunicação, marketing eleitoral e gestão de imagem pública. Participou de 29 campanhas eleitorais, sendo responsável pela coordenação de 17 delas, com atuação em diferentes estados brasileiros. Possui MBA Executivo em Marketing Político, é fundador da YellowFANT Comunicação e da P10 Conteúdo e autor de Campanha Planejada. Como articulista e analista político, escreve sobre eleições, poder, comportamento do eleitor, comunicação e os desafios da política contemporânea.
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